Por Saulo Medeiros
O Rio Grande do Norte caminha para um cenário político inédito em 2026: a possibilidade concreta de uma eleição indireta para o Governo do Estado. A conjuntura envolve a saída anunciada da governadora Fátima Bezerra (PT) e a decisão do vice-governador Walter Alves (MDB) de não assumir o cargo.
Fátima já declarou que deixará o Executivo em abril de 2026 para disputar uma vaga no Senado Federal. Pela Constituição, caberia ao vice-governador assumir automaticamente o governo. No entanto, Walter Alves comunicou em reunião com a governadora Fátima Bezerra que não pretende ocupar o cargo e que seu projeto político é disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.
Com a vacância simultânea dos cargos de governador e vice, a Constituição do RN determina que o presidente do Tribunal de Justiça, atualmente o desembargador Ibanez Monteiro, assuma interinamente o Executivo estadual. Essa assunção, porém, não garante a permanência automática no cargo até o fim do mandato.
O que diz o STF
Decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) estabelecem que, em caso de dupla vacância no último ano do mandato, é obrigatória a realização de eleição para escolha do novo chefe do Executivo. Não é permitido que o ocupante interino governe sem consulta eleitoral.
Dessa forma, ao assumir o cargo, o presidente do Tribunal de Justiça deverá convocar nova eleição no prazo de até 30 dias. Como a vacância ocorrerá em 2026, último ano do mandato, a tendência é que essa eleição seja indireta, conduzida pela Assembleia Legislativa do RN, com participação exclusiva dos deputados estaduais.
O governador eleito exerceria um mandato-tampão, permanecendo no cargo apenas até 31 de dezembro de 2026.
O mapa da eleição indireta
Nos bastidores, o tema já domina as articulações políticas e deve se consolidar como um dos principais debates institucionais do Estado até abril. A eleição indireta deixou de ser apenas uma hipótese jurídica e passou a integrar o jogo político.
Hoje, ao menos dois blocos começam a se desenhar. O primeiro reúne deputados alinhados ao governo Fátima Bezerra, interessados em um nome de consenso que preserve a estabilidade administrativa. O segundo gira em torno do ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, agregando parlamentares da oposição e setores do centro, que veem a ocupação do Executivo, ainda que provisória, como ativo eleitoral relevante.
Os números na Assembleia
Pelo lado governista, ao menos sete deputados estariam alinhados em torno de uma possível candidatura do secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier: Divaneide Basílio (PT), Dr. Bernardo Amorim (PSDB), Eudiane Macedo (PV), Francisco do PT (PT), Isolda Dantas (PT), Ubaldo Fernandes (PSDB) e Ivanilson Oliveira (União Brasil).
Não está descartada, porém, uma candidatura do próprio deputado Francisco do PT, o que poderia elevar esse grupo a cerca de dez parlamentares.
O fator Álvaro Dias
Em torno de uma eventual candidatura de Álvaro Dias, um número expressivo de deputados tende a caminhar de forma unificada. Estariam nesse campo: Adjuto Dias (MDB), Coronel Azevedo (PL), Cristiane Dantas (SDD), Dr. Kerginaldo (PL), Gustavo Carvalho (PL), Tomba Farias (PL), José Dias (PL), Taveira Júnior (União Brasil), Nelter Queiroz (PSDB), Terezinha Maia (PL), Vivaldo Costa (PV) e Ezequiel Ferreira (PSDB).
Em cima do muro
Quatro deputados, até o momento, permanecem indecisos: Galeno Torquato (PSDB), Kleber Rodrigues (PSDB), Neilton Diógenes (PP) e Hermano Morais (PV).
Freio de arrumação
As conversas avançadas entre o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira (PSDB), e o senador Rogério Marinho (PL), pré-candidato ao Governo do Estado, funcionaram como um freio de arrumação nas articulações do vice-governador Walter Alves, e temendo ficar isolado correu para anunciar composição com o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil).
Ezequiel, que avalia sua permanência no PSDB — legenda que também abriga o senador Styvenson Valentim —, tem intensificado o diálogo com Rogério Marinho e com o prefeito de Natal, Paulinho Freire, mirando o tabuleiro eleitoral de 2026.
O cenário aponta para um afastamento político entre o presidente da Assembleia e o vice-governador. Tudo indica que Ezequiel Ferreira e Walter Alves estarão em campos opostos na próxima disputa estadual.
O “combinado”
Como declarou o deputado federal João Maia, o combinado prevê que Walter Alves indique o deputado estadual Hermano Morais como vice na chapa encabeçada pelo prefeito Allyson Bezerra ao Governo do Estado.
PSDB no centro do tabuleiro
A permanência de Ezequiel Ferreira no PSDB tem potencial para reconfigurar profundamente as nominatas de 2026. Ao menos quatro deputados aguardam uma definição do presidente do Legislativo potiguar para decidir seus próprios caminhos.
Styvenson para o governo?
Em meio às especulações, voltou a circular com força o nome do senador Styvenson Valentim (PSDB) como possível alternativa à candidatura de Rogério Marinho ao Governo do Estado. Nesse desenho, Ezequiel indicaria sua irmã, Milena Ferreira, como vice na chapa.
Brisa, fica
O debate sobre a cassação da vereadora natalense Brisa Bracchi (PT) esfriou de vez. O assunto foi encerrado após intervenção direta do prefeito Paulinho Freire, que decidiu pela permanência da parlamentar.
Disputa antecipada pela presidência da ALRN
O deputado Kleber Rodrigues e o vice-governador Walter Alves articulam fortemente a sucessão na Presidência da Assembleia Legislativa a partir de 2027. Ambos já teriam alinhado um acordo de revezamento no comando da Casa, caso Allyson Bezerra vença a eleição estadual.
Na berlinda
Analistas políticos apontam Taveira Júnior, Hermano Morais e Terezinha Maia como os deputados estaduais com maiores dificuldades na busca pela reeleição em 2026.
Na berlinda II
Na disputa pela Câmara Federal, a reeleição do deputado Sargento Gonçalves (PL) é vista como altamente improvável. Diferentemente de 2022, quando seu nome estava fortemente associado a Wendell Lagartixa, o cenário agora é outro — e bem mais adverso.
Surpresas do Oeste
As pré-candidaturas de Dr. Bernardo (PV) e do ex-prefeito de Caraúbas, Juninho Saia Rodada (PL), despontam como possíveis surpresas em 2026 na disputa pela Câmara Federal, enfraquecendo principalmente a base eleitoral do deputado João Maia na região.
Frase
“Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.”
— Magalhães Pinto
*Saulo Medeiros é jornalista, trabalha no Senado Federal e escreve semanalmente à Coluna Coisas da Política no Portal Potiguar News.







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